Pelo direito fundamental de ser criança

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1 Mary Eming Young, 62 anos

Toda criança, desde o nascimento, tem direito a mais do que somente registro no cartório e acesso a saúde, moradia e nutrição. Além de tudo isso — e do cuidado amoroso de um familiar — ela precisa e deve ter a garantia de um ambiente que favoreça o livre desenvolvimento de suas habilidades e virtudes. É assim que pensa a doutora em saúde pública e pediatra americana Mary Eming Young, 62 anos. Ela visitou Fortaleza para participar do Seminário Internacional Mais Infância Ceará, articulado pela primeira-dama Onélia Leite.

Como diretora do Centro de Desenvolvimento Infantil da Fundação de Pesquisa de Desenvolvimento da China e conselheira sênior do Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard, Young defende que empregar tempo e capital nesse estágio da vida é garantia de um futuro mais justo e equilibrado. Por causa disso, ela critica alguns políticos não se mostrarem favoráveis a fazer esse investimento contínuo, considerando que o retorno só poderia ser visto e sentido 20 anos à frente — e não ao longo de suas gestões.

Com o olhar firme que vez por outra se deixava fechar na consequência de um sorriso, Mary Young falou (em inglês traduzido pelo intérprete Nícolas Ayres) ainda sobre a relação da primeira infância com a pobreza e citou lugares onde, na sua perspectiva, o investimento nas crianças e, principalmente, no brincar, tem trazido bons resultados.

O POVO – Qual a senhora acredita que seja o direito básico menos assegurado pelo poder público às crianças em seus primeiros anos de vida?

MARY YOUNG – As crianças quando nascem ainda não têm os direitos fundamentais garantidos. Principalmente o direito de brincar e o direito para o seu desenvolvimento completo, holístico. Não simplesmente o físico, mas o desenvolvimento social, de uma forma bem geral. Então, internacionalmente, o que se busca hoje é que as crianças tenham assegurado esse direito de forma holística, que passe para além do desenvolvimento físico e que abrace todas essas outras dimensões do desenvolvimento social, econômico, familiar.OP – De que forma a situação de pobreza em que vivem muitas famílias, principalmente nos países subdesenvolvidos e emergentes, prejudica o desenvolvimento das crianças?

MARY – Esses primeiros anos da vida da criança a gente já sabe, a partir do desenvolvimento do cérebro, que são fundamentais para o desenvolvimento geral. Então a pobreza, quando compreendida como a falta de comida, de acesso a serviços de saúde pública e à escola, prejudica bastante esse desenvolvimento. A pobreza afeta porque a criança fica privada de todos esses fatores que são fundamentais.

 

OP – A senhora tem experiências em diferentes partes do mundo, a exemplo da Europa, da Ásia, da África e da América Latina. Esses lugares mantêm algum aspecto em comum sobre o cuidado com as crianças?

MARY – Os países são separados. Tem os países desenvolvidos, que estão num estágio bem mais avançado em relação ao cuidado que prestam às crianças na primeira infância, como os países nórdicos, Escandinávia, que têm uma atenção bastante ratificada nas crianças nesses primeiros anos no sentido de garantir o desenvolvimento delas. E outras regiões, países em desenvolvimento, que ainda estão muito atrás. Vejo alguns progressos feitos aqui na América Latina, Colômbia, Peru, Chile, que já avançou bastante principalmente focando nas crianças que são oriundas das famílias mais pobres. Os maiores déficits, lacunas, são nos países africanos. Cerca de 60% das crianças (na África) não conseguem ter um desenvolvimento normal porque não têm ainda acesso a alimentação, serviços de saúde pública. Os melhores avanços podem estar acontecendo agora aqui na América Latina. Se tirar, obviamente, os países mais desenvolvidos que já estão num patamar interessante de cuidado às crianças.OP – Como o Brasil está situado nesse contexto?

MARY – O Brasil tem progredido, tem realizado avanços bastante significativos. O programa (federal) Criança Feliz tem sido um. E aqui no Ceará também. Há uma vontade política, uma decisão política muito forte de prover todos esses serviços nos primeiros anos. A gente já tem conhecimento de que se nós não tivermos um desenvolvimento muito bem feito das crianças nos primeiros anos não vamos conseguir potencializar todo o capital humano delas para que possam encarar o mercado de trabalho com as exigências do novo século.

OP – Problemas que os governos sentem na ponta, como baixa escolaridade, violência urbana e descuido do meio ambiente, por exemplo, são costumeiramente apontados pela gestão pública como fatores que devem ser solucionados na infância, principalmente com a ampliação da oferta de educação. A senhora percebe que essa constatação tem surtido efeitos?

MARY – É importante frisar que o primeiro passo é reconhecer que esses problemas que você citou são relacionados, têm uma raiz muito forte com os problemas que essas crianças tiveram na primeira infância. Já há pesquisas econômicas realizadas aqui no Brasil que deixam bastante claro que o investimento que você faz na primeira infância é fundamental para que depois você possa vir a colher os frutos de uma melhor sociedade, com menos evasão escolar, crianças com melhor nível de escolaridade, mais respeito ao meio ambiente. Mas, isso é complicado porque é um retorno a longo prazo, de 10, 20 anos, para romper esse ciclo intergeracional de pobreza. Os investimentos precisam ser feitos de forma pesada agora. Para os políticos não parece ser muito atraente investir agora e só visualizar um retorno daqui a 20 anos quando essas crianças chegarem, por exemplo, no mercado de trabalho, mas é fundamental que os governos continuem caminhando nessa direção. Se você fizer isso, tem garantia de retorno. Terá cidadãos mais escolarizados, menos violência, pessoas com mais capacidade de encarar os desafios do mercado. É difícil, mas é fundamental que o governo mantenha.OP – Políticas públicas de curto, médio e longo prazo para a primeira infância. Quais devem ser tomadas a partir de agora?

MARY – Estão todas muito bem conectadas. Os resultados são como uma escada. A partir do momento em que você faz esses investimentos corretamente na primeira infância, terá crianças mais felizes, crianças com condições de ter acompanhamento escolar bem melhor. E, obviamente, mais saudáveis, com melhores condições de progredir. Aí eles vão passar dos primeiros anos de escolaridade para o ensino do segundo grau e tudo isso vai conduzir até uma idade mais avançada onde elas vão estar muito mais preparadas para que possam continuar sua vida de estudante, se assim desejarem, e obviamente chegar ao mercado de trabalho com possibilidade bem maior de ter melhores rendas. Crianças que conseguem passar por todos esses caminhos chegam com uma possibilidade bem maior de auferir melhores salários, melhores profissões.

OP – Tem se falado numa tendência de diminuir a idade obrigatória para a matrícula de crianças em creches ou pré-escolas, que hoje é de quatro anos. A senhora concorda?

MARY – Três e quatro anos acredito que já seja um pouco tarde demais. Na verdade, a gente precisa ter cuidado e entender que, para essa faixa etária, as pessoas mais importantes nas vidas dessas crianças são pai e mãe. A gente precisa entender e dar o suporte necessário para que os pais e as mães saibam de fato quais seus papéis no desenvolvimento da criança. E não é simplesmente reduzindo a idade para três anos ou menos que isso e tentando trazer a escolaridade já para essa idade que a gente vai conseguir ter um desenvolvimento da capacidade total dessa criança. O importante para essa faixa etária não é que elas aprendam a ler, a escrever, a reconhecer os números. Na Finlândia, até os sete anos de idade, as crianças não têm uma pré-escola. Vão para a creche e tudo o que elas fazem lá é baseado na brincadeira, porque elas estão desenvolvendo outros tipos de habilidades mais suaves, convivência interpessoal, criando as condições necessárias para que elas possam aprender as outras disciplinas futuramente. Até sete anos essas são tratadas por educadores altamente treinados em um ambiente onde elas estão para se divertir, para aprender a conviver e ter um aumento da sociabilidade. A partir daí elas vão começar a fazer reconhecimento dos números, das letras. Mas, até essa idade, o fundamental é que elas possam se divertir e se desenvolver como pessoas. E não diminuir a idade para que traga a escolaridade, não é isso.OP – A senhora tem filhos? Quais foram os desafios sentidos na criação deles?

MARY – Tenho três filhos, o primeiro com 35, o segundo com 25 e o terceiro com 19 anos. Quando o primeiro nasceu, eu ainda estava fazendo residência em pediatria, estava muito ocupada com os estudos, aí meus pais moravam aqui em Brasília, meu pai era professor na UnB (Universidade de Brasília), e mandei meu filho para passar uma temporada aqui com os meus pais. Depois, quando os outros dois (filhos) vieram, eu já estava bem mais experiente, já tinha um conhecimento bem mais apurado em relação ao papel do pai e da mãe na interação com as crianças, de ter um diálogo maior, a convivência do dia a dia, que tudo isso é muito importante para o desenvolvimento da criança. Notei com muita clareza a diferença do desenvolvimento dos dois mais novos para o mais velho. Vi que os dois mais novos se desenvolveram bem melhor e credito isso a essa interação que pude visualizar e ver na prática, que tive condição de dar aos dois mais novos e não tive condição de dar ao mais velho.

OP – O que a senhora pensa sobre a proposta de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos de idade?

MARY – Não conheço a realidade jurídica do Brasil, mas, como médica, posso dizer que com 16 anos de idade você ainda tem uma criança. A adolescência está se desenvolvendo naquele momento. Por exemplo, a capacidade de controlar a impulsividade. São coisas que ainda estão em desenvolvimento. Nós precisamos dar uma chance para que essas crianças cheguem ao total desenvolvimento do seu cérebro para que elas possam passar por todos os estágios que precisam passar. E, até mesmo com 17, 18 anos, a gente vê casos em que as crianças não estão totalmente desenvolvidas, não chegaram ao seu desenvolvimento pleno.

Perfil

Mary Eming Young tem 62 anos, nascida no dia 4 de agosto de 1955. Além de ser mãe de três filhos, ela é pediatra pela Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, e doutora em saúde pública global e desenvolvimento infantil. Já trabalhou no Banco Mundial e, atualmente, é diretora do Centro de Desenvolvimento Infantil da Fundação de Pesquisa de Desenvolvimento da China, além de conselheira sênior do Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard e professora-adjunta de Pediatria da Hawaii Medical Center. Embora trabalhe na China, ela mora em Washington, D.C.

PERGUNTA DO LEITOR

Rui Aguiar, coordenador do Unicef para Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte

PERGUNTA — Como envolver diretamente as crianças no processo de desenvolvimento infantil? Como ouvi-las e potencializar a participação delas na tomada de decisão?MARY YOUNG – Só há uma forma: engajar mais as crianças nos programas. Precisamos garantir que essas crianças tenham voz. Precisamos empoderá-las, entender qual a mensagem que essas crianças estão passando para a gente. Certamente a gente precisa ouvir mais as crianças e entender seus direitos para garantir que eles sejam efetivados.

Traduzido para o português por Nícolas Ayres, tradutor público juramentado e intérprete comercial

ENTREVISTA CONCEDIDA AO JORNAL O POVO.

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